Desperdício

Código de Leis

A proibição do desperdício na tradição judaica está diretamente conectada à lei de Ofensa ao Criador (Bircat Hashem), pois desperdiçar recursos da criação implica em desrespeito ao Criador e indiferença por tudo o que Ele criou. Este princípio, conhecido como bal tasḥit (בל תשחית), estabelece que tudo no mundo pertence ao Criador, e que destruir ou desperdiçar desnecessariamente qualquer coisa útil equivale a uma apropriação indevida da propriedade divina.


O fundamento deste princípio está na Torá, onde se ordena preservar as árvores frutíferas mesmo em tempo de guerra (Devarim 20.19-20). Se até durante um cerco militar a destruição desnecessária é proibida, quanto mais em tempos normais deve-se evitar o desperdício de qualquer recurso. Esta lógica foi expandida pelos sábios para abranger todos os aspectos da vida, estabelecendo uma ética de conservação que se aplica a alimentos, água, energia, tempo e até mesmo ao dinheiro.




Fundamento bíblico da proibição




O conceito de bal tasḥit deriva da passagem em Devarim (20.19) que estabelece restrições ao comportamento em guerra:


Quando você cercar uma cidade por um longo tempo, guerreando contra ela para capturá-la, não destrua suas árvores com golpes de machado, pois você comerá delas. Não as corte, por acaso as árvores do campo são pessoas para que você as cerque?


Este verso estabelece que, mesmo em contexto de guerra, onde a destruição é parte da estratégia, há limites morais. A proteção das árvores frutíferas representa o reconhecimento de que certos recursos são preciosos demais para serem destruídos sem necessidade real, pois servem ao sustento humano por gerações.


Os sábios interpretaram esta lei como um princípio universal. No Talmud (Shabat 67b) e nos poskim, fica claro que bal tashḥit aplica-se a toda destruição inútil.




Extensão aos alimentos




O Rambam (Mishnê Torá, Hilḥot Melaḥim 6.10) codificou que a extensão do princípio de bal tasḥit se aplica não apenas a quem destrói árvores, mas a qualquer um que quebra objetos, rasga roupas, derruba uma construção, entope uma fonte ou destrói alimentos de forma destrutiva.


Esta halaḥá estabelece claramente que alimentos estão entre os itens protegidos pela proibição. Desperdiçar comida ainda boa, jogar fora alimentos comestíveis ou deixar estragar por negligência são violações diretas desta lei. A gravidade desta proibição reflete o reconhecimento de que o alimento é um dom divino essencial à vida.


A tradição judaica desenvolveu sensibilidade particular quanto ao desperdício alimentar. Os sábios ensinavam que se deve cuidar para não preparar quantidades excessivas que resultariam em desperdício, e que restos de comida devem ser preservados sempre que possível. Esta atitude reflete não apenas economia prática, mas reverência pelo sustento dado pelo Criador.


Para os Bnei Noaḥ, ao fazer a bênção antes de comer, pede-se permissão ao Criador para usar aquele alimento, e desperdiçá-lo depois é uma incoerência grave que viola Bircat Hashem.




Água e recursos naturais




A proibição se estende também aos recursos naturais, particularmente à água. O Rambam menciona explicitamente “entupir uma fonte” como violação de bal tasḥit, indicando que impedir o fluxo e uso de água constitui forma de destruição. Desta proibição específica, os sábios derivaram princípios mais amplos sobre o uso responsável da água.


O desperdício de água inclui deixar torneiras abertas desnecessariamente, usar quantidades excessivas para tarefas que requerem menos, ou permitir vazamentos sem reparo. Em épocas ou locais onde a água é escassa, a gravidade da proibição aumenta, pois o desperdício afeta não apenas o indivíduo mas a comunidade inteira.


Outros recursos naturais seguem o mesmo princípio. Combustíveis, madeira, minerais e todos os elementos que o Criador colocou no mundo para uso humano devem ser empregados com sabedoria e moderação. A exploração desenfreada que esgota recursos sem consideração pelo futuro é uma violação grave de bal tasḥit.




Uso do dinheiro




O Talmud (Shabat 105b) estabelece que desperdiçar dinheiro também está sob a proibição:


Rabi Shimon ben Elazar disse em nome de Ḥilfa bar Agra, que disse em nome de Rabi Ioḥanan ben Nuri: Aquele que rasga suas roupas com raiva, ou que quebra seus objetos com raiva, ou que joga fora seu dinheiro com raiva, deve ser visto como alguém que pratica idolatria.


Este ensinamento equipara quem destrói seus bens com raiva a um idólatra, demonstrando a gravidade com que a tradição judaica encara tal comportamento. Essa comparação considera que tanto a idolatria quanto o desperdício representam negação da soberania divina sobre o mundo material. Quem desperdiça age como se fosse dono absoluto dos recursos, ignorando que tudo pertence ao Criador.


Comprar por impulso, trocar objetos que ainda funcionam perfeitamente só por moda ou jogar dinheiro em futilidades absolutas é bal tashḥit. A halaḥá reconhece que gastos que trazem alegria ou elevam a qualidade de vida (beleza, conforto, lazer) são permitidos, pois a proibição é o capricho destrutivo.




Desperdício de tempo




O tempo é o recurso mais valioso que uma pessoa pode ter, pois ele não pode ser recuperado. Procrastinação crônica, entretenimento excessivo, passar horas em redes sociais à toa ou assistir conteúdo vazio enquanto se negligenciam obrigações, são formas de violar bal tashḥit.


Desperdiçar o tempo alheio, como atrasos constantes, conversas que se prolongam quando o outro tem pressa ou marcar compromissos que não se cumpre, é igualmente grave. Para os Bnei Noaḥ, cada dia oferece oportunidades para crescimento e cumprimento de obrigações. Desperdiçar essas oportunidades é perder chances de elevação espiritual, demonstrando falta de reverência pelo tempo de vida que o Criador deu.




Exceções e limitações




A halaḥá reconhece situações onde a aparente destruição é permitida ou até necessária. O Talmud (Shabat 129a) relata que certa vez quebraram uma cadeira para fazer fogo e aquecer Raba após ele fazer um procedimento médico. Abaye perguntou se aquilo não violava bal tasḥit, e Raba respondeu que a preservação da saúde do corpo é mais importante que proibição de destruir objetos. Quando há necessidade médica legítima, diversos recursos podem ser destruídos sem violar bal tasḥit, pois o valor da vida humana supera o valor de qualquer objeto material.


Outras exceções incluem situações onde a destruição de um item permite benefício maior. O Rambam explicita que se uma árvore frutífera vale mais como madeira do que pelos frutos que produz, pode ser cortada, pois não há desperdício quando se obtém uso mais valioso. Este princípio aplica-se analogamente a outras situações onde aparente destruição resulta em benefício real.


A chave está na intenção e no propósito. Bal tasḥit proíbe destruição desnecessária, caprichosa ou motivada por raiva. Destruição com propósito legítimo e benefício claro não viola a proibição, desde que o benefício seja genuíno e não mero pretexto.




Dimensão educacional




A proibição do desperdício está enraizada na formação do caráter. Bal tasḥit não é apenas uma regra técnica sobre conservação de recursos, mas um princípio ético e moral. A pessoa que desenvolve a consciência sobre o desperdício naturalmente cultiva outras virtudes.


A educação das crianças sobre bal tasḥit deve começar cedo, através do exemplo e da instrução. Ensinar a terminar a comida no prato, fechar torneiras, apagar luzes desnecessárias e cuidar dos pertences cultiva não apenas economia, mas reverência pela criação. Estas práticas comuns conectam todas as coisas com o Criador, formando a consciência de que o mundo não existe apenas para satisfação imediata dos desejos humanos.




Conexão com o reconhecimento ao Criador




O desperdício viola bal tasḥit precisamente porque nega implicitamente que tudo pertence ao Criador. Quando alguém desperdiça, age como se os recursos fossem absolutamente seus, para fazer o que bem entender. Esta atitude ignora a realidade de que os humanos são administradores, não proprietários absolutos, dos bens que possuem.


O Midrash (Cohelet Rabá 7.13) relata que quando o Criador criou Adam, Ele o levou por todas as árvores do Jardim do Éden e o instruiu para não destruir o mundo. Este ensinamento estabelece que a humanidade recebeu o mundo em confiança, com responsabilidade de preservá-lo. O desperdício quebra esta confiança, demonstrando ingratidão e arrogância.


As bênçãos alimentares expressam o reconhecimento da propriedade divina, enquanto o desperdício depois de comer contradiz a própria bênção. A coerência entre reconhecimento verbal e ação prática é essencial na vida espiritual dos Bnei Noaḥ.




Aplicações contemporâneas




O mundo moderno apresenta desafios únicos relacionados ao desperdício. A abundância em muitas sociedades criou a cultura de descartabilidade onde as coisas são jogadas fora não porque não servem mais, mas porque perdem a novidade. Esta mentalidade contradiz frontalmente o princípio de bal tasḥit.


O desperdício alimentar em escala industrial é uma violação massiva desta lei, pois enquanto os alimentos produzidos mundialmente são desperdiçados, milhões de pessoas passam fome. Esta realidade desafia os Bnei Noaḥ a considerarem como as escolhas individuais contribuem para padrões maiores de desperdício.


O consumo de energia e recursos naturais também requer atenção. Deixar luzes acesas à toa ou torneiras abertas violam a proibição de bal tasḥit. A facilidade com que recursos estão disponíveis não elimina a obrigação de usá-los responsavelmente.


A cultura do consumismo, que incentiva compras desnecessárias e substituição frequente de objetos, contradiz fundamentalmente os valores de bal tasḥit. Os Bnei Noaḥ devem desenvolver resistência a estas pressões culturais, cultivando a mentalidade de não desperdiçar dinheiro com compras impulsivas e evitando acumular coisas.


Embora bal tasḥit seja obrigação individual, possui também uma esfera comunitária. As comunidades noaítas devem estabelecer práticas que minimizem desperdício, como sistemas de compartilhamento de recursos, programas de doação de alimentos e itens não utilizados, e educação sobre conservação.




Relação com outras leis




Bal tasḥit conecta-se intimamente com várias outras obrigações dos Bnei Noaḥ. Primeiro, relaciona-se com a lei de Roubo, pois desperdiçar recursos comuns ou prejudicar outros através do desperdício por si só é uma forma de roubo indireto. Segundo, vincula-se aos Sistemas de Justiça, que devem estabelecer padrões comunitários de uso responsável de recursos.


Terceiro, bal tasḥit expressa concretamente o respeito ao Criador exigido pela lei de Ofensa ao Criador. Cada ato de conservação é reconhecimento prático da soberania divina sobre a criação. Quarto, relaciona-se com a proibição de Assassinato, pois o desperdício extremo pode colocar vidas em risco.




Desenvolvimento de sensibilidade




A observância ideal de bal tasḥit vai além do cumprimento técnico, desenvolvendo sensibilidade refinada à santidade da criação. Esta sensibilidade trabalha a atenção aos detalhes, como evitar o desperdício, se conscientizar sobre padrões de compra e consumo, exercitando a disciplina contra impulsos desnecessários.


Os Bnei Noaḥ que cultivam esta sensibilidade descobrem que bal tasḥit não é uma restrição pesada, mas um caminho de simplicidade para uma vida mais significativa e consciente. Ao reconhecer que cada recurso é um presente divino, cada ato de conservação torna-se expressão de gratidão e reverência.




Conclusão




A espinha dorsal da proibição de desperdício é saber que tudo no mundo pertence ao Criador, e a humanidade recebeu recursos em confiança, para usar com responsabilidade. Esta lei conecta o material ao espiritual, demonstrando que até ações comuns do dia a dia possuem uma dimensão sagrada.


Para os Bnei Noaḥ, bal tasḥit oferece caminho concreto para expressar reconhecimento ao Criador através do cuidado com Sua criação. Evitar desperdício de alimentos, água, dinheiro, tempo e todos os recursos não é apenas prudência prática, mas o cumprimento de uma lei universal que reflete compreensão profunda da conexão entre Criador, criação e humanidade.

Qualquer um que aceite os Sete Mandamentos e tenha cuidado em fazer isso é um justo entre as nações do mundo e tem uma parte no próximo mundo.

- Maimônides, Mishnê Torá

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