O conceito de Cofer Baicar
Código de Leis
Cofer Baicar (כופר בעיקר) é um termo que significa literalmente “negador do essencial” ou “negador do fundamental”, e representa uma das formas mais graves de violação da lei de Idolatria. Essa expressão designa a negação ou rejeição de princípios fundamentais da fé no Criador, especialmente aqueles que comprometem a compreensão da unicidade e soberania absoluta de Deus sobre toda a criação.
A gravidade dessa transgressão reside no fato de que ela ataca o próprio alicerce da relação entre o ser humano e o Criador. Enquanto outras violações da lei de Idolatria envolvem serviço a divindades estrangeiras ou práticas idólatras, o Cofer Baicar mina os fundamentos sobre os quais toda a estrutura espiritual se apoia.
Fundamentos na tradição oral
O conceito de Cofer Baicar está profundamente enraizado na tradição oral do judaísmo. Embora a Torá escrita estabeleça claramente a unicidade de Deus em versos como “Escuta Israel, o Criador é nosso Deus, o Criador é Um” (Devarim 6.4), foi a tradição rabínica que desenvolveu e sistematizou a compreensão de quais crenças constituem uma negação desse princípio essencial.
O Talmud e obras posteriores identificaram várias categorias de heresia que envolvem a negação de verdades fundamentais sobre o Criador. Os sábios usaram termos específicos para distinguir diferentes tipos de transgressões teológicas. Entre esses termos, cofer denota aquele que nega, e quando combinado com baicar, forma uma expressão que captura a essência da rejeição dos fundamentos da fé.
Maimônides, ao sistematizar a halaḥá no Mishnê Torá, dedicou bastante atenção à definição das crenças que constituem heresia. Ele identifica cinco categorias de hereges (minim), sendo que várias delas se relacionam diretamente com o conceito de Cofer Baicar. Entre essas categorias, destacam-se aquele que nega a existência de Deus, aquele que afirma a existência de mais de uma divindade, e aquele que atribui corpo ou forma material ao Criador.
A unicidade absoluta do Criador
O princípio fundamental que o Cofer Baicar viola é a unicidade absoluta do Criador. Este conceito vai além da simples afirmação de que existe apenas um Deus. Ele estabelece que o Criador é único não apenas numericamente, mas em Sua essência, Seu poder e Sua autoridade sobre toda a criação.
Maimônides abre o Mishnê Torá (Iessodei Hatorá 1.1) estabelecendo este princípio de forma inequívoca. Ele escreve que a base de todos os fundamentos e a espinha dorsal da sabedoria é saber que existe um Ser Primordial que trouxe tudo à existência.
Esta formulação deixa claro que toda a existência depende absolutamente do Criador, enquanto a existência do Criador é independente e autossuficiente. Negar isto, ou sugerir que existe qualquer outra fonte de poder equivalente ou independente do Criador, constitui Cofer Baicar.
Negação da existência de Deus
A forma mais radical de Cofer Baicar é a negação completa da existência de Deus. Esta posição, embora rara entre aqueles que buscam algum tipo de vida espiritual, é a raiz de toda heresia. Afirmar que o mundo não tem um Criador, que tudo surgiu por acaso ou por processos puramente naturais sem direção divina, remove completamente o alicerce sobre o qual todas as leis morais e espirituais se apoiam.
No entanto, para os Bnei Noaḥ, esta categoria tem menos relevância prática, uma vez que aqueles que buscam viver de acordo com as Sete Leis já reconhecem a existência do Criador. O desafio para os Bnei Noaḥ está mais nas formas sutis de Cofer Baicar que podem não negar a existência de Deus diretamente, mas que comprometem aspectos essenciais de Sua natureza ou autoridade.
Dualismo e forças paralelas
Uma das manifestações mais comuns de Cofer Baicar é a crença em dualismo, a ideia de que existe uma força equivalente ou paralela ao Criador. Esta concepção pode assumir várias formas, desde sistemas religiosos explicitamente dualistas até crenças mais sutis que atribuem poder independente a entidades espirituais.
O zoroastrismo antigo exemplifica o dualismo clássico, postulando dois princípios fundamentais em luta eterna. Ahura Mazda representava o bem e a luz, enquanto Angra Mainyu (Ahriman) representava o mal e a escuridão. Neste sistema, ambas as forças possuíam poder real e substancial, lutando pelo controle do universo. Esta visão contradiz frontalmente o monoteísmo absoluto que a Torá exige.
A tradição judaica enfrentou e rejeitou firmemente conceitos dualistas ao longo de sua história. Os sábios do Talmud se posicionaram contra a noção de duas autoridades, particularmente quando os judeus de Bavel entraram em contato com o zoroastrismo. Esta rejeição não era meramente teórica, mas reconhecia o perigo espiritual real que o dualismo representava para a integridade da fé monoteísta.
Atualmente, a concepção tradicional do diabo transita entre uma criatura caída e um inimigo equivalente a Deus, que só será vencido no último momento desse duelo. No entanto, essa compreensão do diabo com poder quase equivalente ao de Deus pressupõe que o mal tem uma origem paralela ao Criador, enquanto em Ieshaiahu (45.7) Ele assume a autoria de tudo:
Eu formo a luz e crio a escuridão, faço a paz e crio o mal, Eu sou o Criador que faz todas essas coisas.
Essas crenças colocam o bem e o mal como as grandes forças, com o Criador e o diabo em lados opostos. Porém, a halaḥá ensina que tudo, incluindo as forças espirituais negativas, vieram do Criador. Então, seria correto dizer que Ele está acima dessas duas forças, e que mesmo o mal existe apenas dentro dos limites estabelecidos pelo próprio Criador, totalmente sob Seu controle.
Atribuição de corporeidade a Deus
Outra forma de Cofer Baicar é atribuir corpo ou forma física ao Criador. Maimônides foi enfático sobre este ponto, argumentando que qualquer crença na corporeidade divina se enquadra como heresia. Ele estabelece no Mishnê Torá que Deus é completamente incorpóreo, sem corpo nem forma, e que todas as descrições antropomórficas na Torá devem ser entendidas metaforicamente.
Para os Bnei Noaḥ, isso significa que qualquer sistema de crença que represente Deus encarnado, ocupando espaço físico, ou possuindo características corpóreas está violando a lei de Avodá zará. Embora a linguagem humana necessite de metáforas para falar sobre o divino, a compreensão interna deve reconhecer que estas são apenas aproximações necessárias, não descrições literais da realidade divina.
Intermediação obrigatória
Um aspecto relacionado de Cofer Baicar é a crença em intermediação obrigatória entre o Criador e a humanidade. Esta é a ideia de que os seres humanos não podem se aproximar de Deus diretamente, mas através de um intermediário específico que possui status divino ou semi divino.
Embora a Torá reconheça que profetas, sábios e líderes espirituais podem ensinar sobre Deus e guiar as pessoas em Seu serviço, nenhum intermediário é necessário para a relação fundamental entre o indivíduo e o Criador. Cada pessoa, judeu ou Ben Noaḥ, pode e deve ter uma conexão direta com Deus através da reza, estudo e cumprimento de Suas leis.
Sistemas de crença que ensinam que a conexão com o divino é mediada por uma figura específica entram em conflito com este princípio. Quando essa figura mediadora é elevada a um status divino ou passa a monopolizar o acesso ao Criador, como a única via de relacionamento com Deus, ela usurpa uma prerrogativa divina e configura uma forma de Cofer Baicar.
Negação da providência divina
Outro aspecto de Cofer Baicar é a negação da providência divina, a crença de que Deus criou o mundo mas não Se envolve com ele ou não governa seus assuntos. Esta posição, às vezes chamada de deísmo, mantém que o universo opera segundo leis naturais estabelecidas na criação, mas que Deus não intervém ou dirige eventos específicos.
Esta visão contradiz o ensinamento da Torá de que o Criador não apenas criou o mundo, mas continua ativamente envolvido em sua manutenção e direção. Para os Bnei Noaḥ, o reconhecimento da providência divina significa compreender que Deus está ativamente presente e envolvido no mundo, e que nenhum evento, por menor que seja, ocorre fora da supervisão e da vontade divina.
Implicações práticas
Nas sociedades contemporâneas, onde diversas tradições religiosas e filosóficas coexistem, é fácil absorver inconscientemente conceitos que comprometem o monoteísmo puro. Os Bnei Noaḥ devem cuidar das influências externas para que não sejam afetados por elas.
A compreensão correta destes princípios fornece uma base sólida para a vida espiritual. Esta compreensão também afeta como os Bnei Noaḥ se relacionam com outras tradições religiosas. Enquanto devem tratar todos com respeito e dignidade, os Bnei Noaḥ precisam manter clareza sobre os princípios fundamentais da fé monoteísta e não podem participar de práticas ou afirmar crenças que violem esses princípios, mesmo quando isso é socialmente desconfortável.
Educação e transmissão
A responsabilidade de educar os filhos sobre estes princípios é essencial. Os Bnei Noaḥ devem ensinar às próximas gerações não apenas que existe um Deus, mas o que isso significa em termos da natureza divina, compreensões erradas e os problemas conceituais delas. Esta educação deve ser apropriada à idade, começando com conceitos simples na infância e desenvolvendo compreensão mais sofisticada conforme as crianças amadurecem.
Esta transmissão não é apenas uma questão de instrução formal, mas de moldar a compreensão através da linguagem do dia a dia, das rezas familiares e das discussões sobre questões espirituais. Nesses contextos, essa compreensão se torna parte de sua estrutura mental básica.
Arrependimento e correção
Para aqueles que reconhecem que mantiveram crenças que constituem Cofer Baicar, o caminho de arrependimento está disponível. A teshuvá (retorno) neste caso envolve três elementos essenciais. Primeiro, o reconhecimento claro de que essas crenças violaram a lei de idolatria. Segundo, o abandono total dessas crenças e a adoção da compreensão correta da natureza do Criador. Terceiro, o compromisso de viver de acordo com esse entendimento correto.
Este processo pode ser desafiador, especialmente para aqueles que cresceram em tradições com conceitos teológicos que contradizem o monoteísmo puro. Pode envolver não apenas mudança intelectual, mas também ajuste emocional e social, particularmente quando significa se distanciar de comunidades ou práticas familiares. No entanto, a integridade da relação com o Criador exige essa clareza e compromisso.
Distinção de conceitos relacionados
É importante distinguir Cofer Baicar de outros conceitos relacionados mas distintos. Enquanto Cofer Baicar se refere especificamente à negação de princípios fundamentais sobre o Criador, existem outras categorias de transgressão teológica na tradição judaica. Por exemplo, Cofer Batorá refere-se à negação da origem divina ou autoridade da Torá, enquanto Apicoros denota aquele que despreza os sábios ou a tradição rabínica.
Para os Bnei Noaḥ, a categoria mais relevante é Cofer Baicar, pois ela toca diretamente nas crenças sobre o Criador que formam a base das Sete Leis. No entanto, esses conceitos adicionais relacionados à aceitação da Torá e respeito pela tradição rabínica também tocam a realidade dos Bnei Noaḥ, que se baseiam nas explicações do Maimônides e de muitos outros sábios.
Contexto histórico
Historicamente, os sábios do Talmud confrontaram várias formas de heresia que envolviam o Cofer Baicar. Durante o período bavlita, o contato com o zoroastrismo apresentou desafios significativos, levando a discussões extensas sobre a natureza da unicidade divina e a rejeição de qualquer forma de dualismo. Mais tarde, o surgimento do cristianismo e do islamismo criou novos contextos para essas discussões.
A posição haláḥica desenvolvida pelos sábios foi consistente, mantendo o compromisso com a unicidade absoluta do Criador. Esta posição permanece relevante para os Bnei Noaḥ contemporâneos que navegam em um mundo de pluralismo religioso, onde são constantemente expostos a sistemas de crença com conceitos teológicos variados.
Aplicação contemporânea
No contexto moderno, a cultura secular frequentemente promove relativismo religioso, sugerindo que todas as concepções de Deus são igualmente válidas. Embora o respeito por todas as pessoas seja apropriado, a halaḥá exige clareza sobre os princípios fundamentais da fé monoteísta. Os Bnei Noaḥ devem desenvolver a capacidade de distinguir entre respeitar pessoas e validar crenças.
Além da questão intelectual, a compreensão correta destes princípios afeta profundamente a vida espiritual. A clareza sobre a unicidade absoluta do Criador solidifica todas as decisões éticas e religiosas. A reza se torna mais focada, o estudo ganha mais importância, o cumprimento das leis adquire significado mais profundo.
O conceito de Cofer Baicar serve como um guardião essencial da integridade da fé monoteísta, pois ele aponta as vulnerabilidades das crenças que comprometem a unicidade e soberania absolutas do Criador. Isso mantem uma base sólida para a vida espiritual dos Bnei Noaḥ.
Qualquer um que aceite os Sete Mandamentos e tenha cuidado em fazer isso é um justo entre as nações do mundo e tem uma parte no próximo mundo.
- Maimônides, Mishnê Torá