Compartilhamento de conteúdo idólatra
Código de Leis
A cultura do compartilhamento transformou a circulação de posts em um reflexo automático. As redes sociais estimulam essa propagação desenfreada, sem que haja uma avaliação consciente do que está sendo distribuído. Cada vez mais as pessoas enviam e recebem vídeos, imagens, frases e símbolos, e nesse fluxo contínuo e sem filtro, a idolatria circula com a mesma naturalidade que qualquer outro material. No entanto, essa ausência de reflexão sobre o que é compartilhado não elimina a responsabilidade haláḥica sobre o conteúdo que as pessoas espalham.
Os sábios extraíram da Torá (Vaicrá 19.14) e codificaram na halaḥá o princípio de lifnei iver, que basicamente é a proibição de colocar um obstáculo espiritual a alguém. O Talmud (Avodá Zará 6b) aplica essa lógica no contexto da idolatria, especificando que aquele que entrega, facilita ou incentiva de alguma forma a idolatria participa desse processo.
O primeiro capítulo da Mishná Avodá Zará (1.1) estrutura esse princípio como a base das proibições de comércio com idólatras nos dias que antecedem seus festivais. A razão é precisamente que qualquer auxílio, mesmo indireto, que contribua para a realização de rituais é vedado. A lógica subjacente é que a participação na cadeia de eventos que culmina em Avodá zará é proibida, mesmo de forma indireta ao culto em si.
Compartilhar conteúdo idólatra reproduz essa cadeia em escala digital. Um único compartilhamento pode alcançar centenas ou milhares de pessoas simultaneamente, tornando a responsabilidade haláḥica proporcional ao alcance do post.
Definição do conteúdo proibido
Na lógica da lei de Avodá zará, a proibição se aplica a qualquer material que promova, incentive, instrua ou legitime a idolatria. Isso inclui vídeos de rituais, estudos, imagens, frases devocionais e outros materiais compartilhados em chats, redes sociais, emails, grupos e demais plataformas digitais, que venerem divindades falsas, espíritos, ancestrais, figuras messiânicas ou qualquer entidade além do Criador.
Essa proibição abrange também a divulgação de eventos, festas e datas importantes de outras tradições religiosas, como convites de missas e cultos cristão-messiânicos, campanhas de igrejas, celebrações de natal e páscoa cristã, rituais de umbanda e candomblé, sessões espíritas, consultas de videntes e cartomantes, festas hinduístas, budistas ou de qualquer outro sistema que envolva serviço a entidades além do Criador. Compartilhar esse tipo de conteúdo, mesmo sem intenção de promover a prática, contribui para a sua circulação e legitima socialmente o que a halaḥá classifica como Avodá zará.
Estudo e propagação
A halaḥá distingue o estudo analítico e acadêmico das religiões idólatras da sua propagação. Compreender o que é o cristianismo, o islamismo ou qualquer outra tradição religiosa para fins de análise, refutação ou compreensão do contexto espiritual em que se vive está dentro do que é tolerado quando feito com consciência haláḥica clara. O problema não está no conhecimento, mas em se tornar um veículo de distribuição que apresenta esse conteúdo sem critério, como se fosse material neutro, legítimo ou de entretenimento inofensivo.
Quando o conteúdo é distribuído sem essa consciência, o efeito prático é induzir as pessoas que recebem o material à idolatria, e o princípio de lifnei iver se aplica independentemente da intenção de quem compartilhou.
Identidade e presença digital
A cultura do compartilhamento leva inevitavelmente ao porquê as pessoas postam o que postam, seja idolatria, meme, recordações ou qualquer outra coisa. O pressuposto básico é que a pessoa que publica ou compartilha acredita que aquilo também seja relevante para os outros. Só que no ambiente digital, todos estão gritando ao mesmo tempo, implorando por uma atenção que deveria vir de dentro.
O Rei Shelomo escreveu em Cohelet (5.1) “Não seja apressado com sua boca”, um princípio universal de maturidade e inteligência que também pode ser usado no meio digital. O hábito de postar anula o senso de privacidade em troca de uma valorização externa, mas nesse caminho, o risco haláḥico de violar as Sete Leis aumenta desnecessariamente, como está escrito no livro de Mishlei (10.19), “Não faltam transgressões onde há muitas palavras, mas quem controla a língua demonstra bom senso”.
Qualquer um que aceite os Sete Mandamentos e tenha cuidado em fazer isso é um justo entre as nações do mundo e tem uma parte no próximo mundo.
- Maimônides, Mishnê Torá