Islamismo
Código de Leis
À luz da halaḥá, a relação entre islamismo e judaísmo constitui um dos temas mais singulares dentro do estudo das Sete Leis de Noaḥ. Diferente do cristianismo, ele é amplamente reconhecido pela autoridade de Maimônides como um sistema de monoteísmo absoluto, o que lhe confere um status haláḥico distinto. No entanto, apesar dessa convergência no monoteísmo, a avaliação do Islã exige uma análise técnica rigorosa sobre a validade de suas pretensões proféticas posteriores à entrega da Torá no Sinai, incluindo questões práticas sob a ótica da proibição de criar novas religiões.
Status haláḥico do islamismo
A questão central na avaliação haláḥica do islamismo é se ele constitui ou não idolatria (Avodá zará). A posição majoritária entre as autoridades haláḥicas, estabelecida por Maimonides e seguida pela maioria dos poskim posteriores, é que o islamismo não é considerado idolatria para os não judeus.
Maimonides, que viveu grande parte de sua vida no Mitsraim sob domínio islâmico, teve contato direto com a teologia muçulmana. Em suas responsas e escritos, ele reconheceu explicitamente o caráter monoteísta do islamismo. O Rabi Ḥaim Beneviste observa que a própria capacidade de Maimonides atuar como médico no Mitsraim demonstra que ele não considerava o islamismo idolatria, pois ele mesmo codificou em Hilḥot Avodá Zará 10.2 que é proibido prestar auxílio médico a um idólatra.
A distinção fundamental estabelecida pela halaḥá é que o islamismo professa o monoteísmo puro, sem atribuir parceiros ou associados a Deus. Esta característica o diferencia categoricamente de sistemas religiosos que a halaḥá classifica como idólatras. Os muçulmanos rejeitam explicitamente qualquer forma de Shituf (associação) e enfatizam a unidade absoluta de Deus.
Elementos de convergência com a Torá
Há diversos pontos onde o islamismo converge com princípios fundamentais da Torá. O primeiro e mais significativo é o monoteísmo estrito. O conceito islâmico de Tauḥid (unicidade divina) alinha-se com o princípio judaico de Iḥud Hashem. Os muçulmanos recitam diariamente a Shahada, que declara não haver divindade além de Deus, ecoando o Shemá Israel.
O islamismo proíbe explicitamente a idolatria, rejeitando imagens, estátuas e qualquer representação física da divindade. Esta posição é consistente com a lei de Avodá zará. A reverência islâmica ao Criador, expressa através das cinco orações diárias e da prostração, demonstra reconhecimento da soberania divina.
Adicionalmente, o islamismo estabelece um código moral que inclui proibições contra assassinato, roubo e imoralidade sexual, elementos que correspondem parcialmente às Sete Leis. O conceito de justiça é central na teologia islâmica, alinhando-se com a lei de Sistemas de Justiça.
Por essas razões, a halaḥá permite que judeus entrem em mesquitas em situações de necessidade, diferente das igrejas cristãs. Esta distinção prática reflete o reconhecimento haláḥico do monoteísmo islâmico.
Elementos problemáticos à luz da halaḥá
Apesar do monoteísmo compartilhado, existem aspectos da teologia e prática islâmica que são problemáticos sob a ótica da halaḥá. A questão mais fundamental é a reivindicação profética de Muḥammad (Maomé). O islamismo apresenta Muḥammad como o mensageiro final de Deus que trouxe a revelação definitiva. Para a halaḥá, esta afirmação é problemática porque implica que a Torá de Moshê não é a revelação completa do Criador, e aceitar a revelação de Muḥammad como verdadeira é equivalente à adesão cristã do Novo Testamento.
Maimonides, na versão não censurada do Mishnê Torá (Hilḥot Melaḥim 11.4), aborda tanto o cristianismo quanto o islamismo no contexto da preparação para a era messiânica. Ele escreve que todas as ações de Jesus e do ismaelita que surgiu depois dele servem apenas para preparar o caminho para o Mashiaḥ. Este texto, embora reconheça um papel específico para essas religiões no plano divino, não valida suas reivindicações teológicas.
O Alcorão, texto sagrado do islamismo, contém narrativas que divergem significativamente do texto da Torá. Embora mencione figuras bíblicas como Avraham, Moshê e outros profetas, as histórias frequentemente diferem em detalhes essenciais. Para os muçulmanos, essas diferenças indicam que os textos judaicos foram corrompidos, enquanto o Alcorão preserva as narrativas originais. Esta posição nega a autenticidade e integridade da Torá.
Maimonides observou que esta diferença torna o diálogo inter-religioso com muçulmanos fundamentalmente diferente do diálogo com cristãos. Enquanto cristãos aceitam a validade do texto da Torá, mesmo que o interpretem diferentemente, muçulmanos questionam a própria autenticidade do texto hebraico. Esta divergência textual cria uma barreira teológica fundamental.
Questões sobre a Caaba e práticas rituais
A Caaba em Meca, pedra negra que serve como direção das orações islâmicas, levanta questões haláḥicas complexas. Historicamente, o local foi usado para culto pagão antes do islamismo. Embora os muçulmanos afirmem que suas orações são dirigidas exclusivamente a Deus e não à pedra em si, a questão haláḥica é se vincular a adoração a um local físico específico constitui uma forma problemática de materialização do culto.
Maimonides abordou esta questão, argumentando que, uma vez que a intenção dos muçulmanos ao se prostrarem em direção à Caaba é voltada exclusivamente ao Criador, e não à pedra propriamente dita, isso não constitui idolatria. Ele enfatiza que não se deve julgar a prática pela história do local, mas pela intenção contemporânea dos praticantes.
No entanto, mesmo que não constitua idolatria estrita, a veneração de locais físicos específicos representa uma diferença fundamental em relação ao judaísmo, que não associa a presença divina a nenhum objeto ou local específico após a destruição do Templo.
Postura islâmica em relação aos judeus
O Alcorão contém passagens que apresentam perspectivas variadas sobre judeus e cristãos. Há versos que reconhecem o Povo do Livro (Ahl al-Kitab) como receptores de revelação divina, mas também há passagens que estabelecem distanciamento e, em alguns contextos, hostilidade.
No Alcorão 5.51, há instruções para que os muçulmanos não se aliem a judeus e cristãos, sob o risco de ser considerado um deles. Este verso estabelece uma separação religiosa clara e desencorajava alianças próximas entre muçulmanos e membros de outras religiões abraâmicas.
Adicionalmente, o Alcorão 9.29 orienta a combater aqueles que não creem em Deus nem aceitam a fé islâmica, cobrando imposto (jizya) em estado de submissão. Esta orientação estabeleceu a base para o sistema de dhimma, no qual judeus e cristãos viviam sob domínio islâmico como cidadãos protegidos, mediante pagamento da jizya e aceitação de restrições sociais e legais.
Do ponto de vista haláḥico, essas prescrições contradizem a promessa divina em Bereshit 12.3, de abençoar os que abençoarem e amaldiçoar os que amaldiçoarem Israel. Essas prescrições, ao estabelecerem uma hierarquia religiosa institucionalizada e, em certos contextos, hostil em relação aos judeus, conflitam com o princípio de que as nações devem abençoar, e não amaldiçoar, os descendentes de Avraham.
Diferenças fundamentais de compreensão
Há divergências teológicas profundas entre a perspectiva judaica e a islâmica sobre figuras e eventos bíblicos. O islamismo ensina que Ishmael, não Itsḥac, foi o filho que Avraham levou para ser sacrificado. Esta alteração muda completamente a narrativa da aliança e da escolha divina.
A Torá estabelece inequivocamente que Itsḥac foi o filho escolhido para continuar essa linhagem. A substituição de Itsḥac por Ishmael na narrativa islâmica reflete uma tentativa de reposicionar a descendência árabe como central no plano divino, em contradição direta com o texto da Torá.
O islamismo também rejeita conceitos fundamentais da teologia judaica, como a eleição especial de Israel e o pacto eterno entre Deus e os descendentes de Iaacov. Para a fé islâmica, todas as revelações anteriores foram preparatórias para o Alcorão, e todas as comunidades religiosas anteriores foram suplantadas pela comunidade islâmica (umma).
Considerações históricas
Historicamente, as comunidades judaicas viveram sob domínio islâmico por mais de mil anos em diversas regiões. O sistema de dhimma permitia a prática judaica, mas com restrições significativas. Judeus foram submetidos a várias imposições, como pagar a jizya, vestir roupas distintas, construir sinagogas mais baixas que mesquitas, além de outras restrições sociais que serviam para demonstrar sua subordinação.
Embora este sistema fosse menos severo que muitas perseguições cristãs na Europa medieval, ele não representava igualdade ou aceitação genuína. As restrições impostas refletiam a visão teológica de que judeus e cristãos, embora não fossem perseguidos violentamente, deveriam viver em estado de humilhação como consequência de sua recusa em aceitar o islamismo.
Apesar das restrições, houve períodos de florescimento intelectual judaico sob domínio islâmico, particularmente na Espanha medieval. Figuras como Maimonides, Iehuda Halevi e Ibn Gabirol produziram obras monumentais de filosofia, poesia e halaḥá. Este intercâmbio intelectual ficou conhecido como "Era de Ouro”, e demonstrava que, mesmo dentro de estruturas políticas desiguais, pode haver contribuições mútuas ao conhecimento humano.
No entanto, essas realizações não alteram a avaliação haláḥica fundamental sobre a teologia islâmica e suas implicações técnicas para judeus e Bnei Noaḥ. O fato de que judeus puderam prosperar intelectualmente sob domínio islâmico não valida as reivindicações teológicas do islamismo.
Considerações finais
Do ponto de vista haláḥico, o islamismo é uma religião que, embora monoteísta e livre de idolatria estrita, apresenta divergências teológicas fundamentais do judaísmo. A negação da Torá como revelação completa do Criador, a reivindicação de uma revelação posterior e superior, e a alteração de narrativas bíblicas fundamentais ferem completamente a halaḥá.
A posição haláḥica sobre qualquer sistema religioso parte de análises técnicas baseadas em princípios gerais, evitando tanto a simplificação excessiva quanto a confusão teológica. Esta abordagem técnica permite que os Bnei Noaḥ tenham mais clareza sobre a autoridade da Torá e o caminho estabelecido pelo Criador para judeus e não judeus.
Bibliografia
- Rambam, Hilḥot Melaḥim 11.4 (versão não censurada - manuscrito Kapaḥ)
https://www.chabad.org/library/article_cdo/aid/1188356/jewish/Melachim-uMilchamot-Chapter-11.htm#v4
- Alcorão 5.51
https://quran.com/5/51
- Alcorão 9.29
Qualquer um que aceite os Sete Mandamentos e tenha cuidado em fazer isso é um justo entre as nações do mundo e tem uma parte no próximo mundo.
- Maimônides, Mishnê Torá