Cristianismo
Código de Leis
A relação entre cristianismo e halaḥá apresenta questões complexas que impactam diretamente no dia a dia dos Bnei Noaḥ. Ao contrário do que muitos pensam, o cristianismo não é um judaísmo sem Jesus. Apesar dele ter surgido como um movimento dentro do próprio judaísmo, ele se desenvolveu historicamente como uma religião distinta com doutrinas que divergem dos princípios estruturais do monoteísmo. Por isso, as doutrinas fundamentais do cristianismo são avaliadas à luz da Torá, especificamente sob a ótica da lei de idolatria.
Status haláḥico do cristianismo
A doutrina central do cristianismo enfatizada na halaḥá é a Trindade, o conceito de que Deus existe como três pessoas divinas em uma única essência. Esta formulação teológica apresenta problemas significativos quando avaliada à luz da lei de Idolatria (Avodá zará). A questão fundamental é como a associação de outras entidades ao Criador viola a proibição de idolatria para os Bnei Noaḥ.
Os Tosafot, comentaristas medievais do Talmud, introduziram uma distinção importante conhecida como Shituf (שיתוף), que literalmente significa "associação" ou "parceria". Este conceito refere-se à prática de associar outras entidades ao Criador sem negar completamente Sua existência ou supremacia.
Embora as autoridades haláḥicas tenham debatido muito sobre a proibição de Shituf para não judeus, a posição majoritária das autoridades haláḥicas, como Maimonides e a maioria dos legisladores posteriores, estabeleceram que qualquer forma de associação de outras entidades ao Criador é proibida também para os Bnei Noaḥ.
A crença na divindade de Jesus, elemento central do cristianismo, constitui Shituf na perspectiva haláḥica. Atribuir natureza divina a um ser humano, mesmo que simultaneamente se reconheça o Criador, viola o princípio fundamental do monoteísmo apresentado na Torá. O problema em si não gira em torno da suposição de alguém ser o Mashiaḥ, mas em considerar qualquer traço de divindade a ele, independente de quem seja.
Perspectiva haláḥica sobre Jesus
A perspectiva judaica sobre Jesus difere radicalmente da cristã. Do ponto de vista haláḥico, Jesus foi um judeu que viveu em algum momento entre o segundo século AEC e o primeiro século EC, pois as fontes talmúdicas afirmam que Jesus foi aluno de Iehoshua ben Peraḥia, um rabino que viveu no segundo século AEC. Pela halaḥá, ele não foi o Mashiaḥ prometido nas profecias bíblicas nem possui qualquer natureza divina.
De acordo com as profecias messiânicas, há critérios claros que uma pessoa deve cumprir durante sua vida para ser considerado Mashiaḥ. O profeta Ieshaiahu (Ieshaiahu 2.4) descreve a era messiânica como um tempo de paz universal, e também afirma que nessa época ficará claro para todos que o mundo tem um Criador (Ieshaiahu 11.6-9).
O profeta Ieḥezkel descreve que o Templo estará em Israel para sempre (Ieḥezkel 37.26-28), o que após o ano 70 EC claramente não aconteceu. Zeḥariá afirma explicitamente sobre a edificação do templo do Criador (Zeḥariá 6.12-13), e quanto à reunião dos dispersos, tanto Ieshaiahu quanto Ieḥezkel afirmam que eles serão reunidos em Israel, formando uma nação unida (Ieshaiahu 11.11-12 e Ieḥezkel 37.21-22). Nenhum destes eventos ocorreu durante a vida de Jesus ou nos dois mil anos subsequentes.
No Mishnê Torá (Hilḥot Melaḥim 11.4), Maimonides aborda explicitamente o contexto dos falsos messias. Na versão não censurada pela Igreja, ele questiona retoricamente o impacto do cristianismo nas profecias messiânicas, explicando que, apesar de todos os profetas terem falado que Mashiaḥ salvaria Israel, reuniria seus dispersos e reforçaria a observância dos mandamentos, o cristianismo causou a morte de israelitas pela espada, humilhou e exilou os remanescentes, substituiu a Torá e levou a maior parte do mundo a servir um deus além do Criador.
A posição haláḥica sobre Jesus se baseia totalmente em critérios que podem ser aplicados a qualquer candidato a Mashiaḥ, dando aos Bnei Noaḥ as ferramentas necessárias para que eles tenham uma compreensão profunda da relação entre a teologia cristã e a lei de idolatria à luz da Torá.
Implicações teológicas da Trindade
A halaḥá não faz distinção entre essência, manifestações e pessoas na divindade. O monoteísmo puro parte do princípio de que o Criador é uma unidade simples, e não uma divindade composta. Halaḥicamente, se uma pessoa da Trindade pode fazer algo que outra não faz, cria-se uma distinção que rompe a unidade. Para a Torá, a unicidade de Deus é tão absoluta que qualquer tentativa de fragmentação em pessoas ou emanações divinas com vontade própria viola diretamente o princípio de Iḥud Hashem (Unidade de Deus) e recai na proibição de Avodá Zará.
O fundamento do monoteísmo na Torá (Devarim 6.4) estabelece que o Criador é Um (Eḥad). Do ponto de vista linguístico, Eḥad não denota simplesmente uma unidade numérica em uma contagem, mas sim uma unicidade absoluta e indivisível. Diferente do termo Rishon (Primeiro), que indicaria o início de uma série e pressuporia a existência de um segundo ou terceiro elemento, Eḥad exclui qualquer sucessão ou fragmentação. Ao declarar que Deus é Eḥad, a Torá afirma que Ele não possui composição, partes ou pessoas distintas que compartilham uma mesma essência.
A teologia da Trindade, que propõe um Deus em três pessoas, introduz o conceito de pluralidade dentro da divindade, o que é estranho à revelação do Sinai. Na lógica do monoteísmo puro, qualquer divisão conceitual da essência divina, mesmo sob o argumento da unidade perfeita, recai na categoria de Shituf, sendo incompatível com a obrigação de reconhecimento da Unidade de Deus (Iḥud Hashem).
Por mais que a argumentação da Trindade se apoie em versos que apresentam um possível diálogo (Bereshit 1.26 e 11.7), não há garantia alguma de que o Criador estava se comunicando com Ele mesmo. Tratar uma ambiguidade como prova irrefutável contradiz a metodologia judaica, que verifica sistematicamente todos os aspectos de um conceito antes de aceitá-lo ou rejeitá-lo como verdade.
Sincretismo e absorção do paganismo
Apesar da proibição bíblica de adotar o paganismo (Vaicrá 18.3), o cristianismo incorporou e ressignificou muitas práticas pagãs ao longo de sua formação histórica, em um processo conhecido como sincretismo religioso. Uma dessas práticas foi a Saturnália, o festival romano em honra a Saturno, deus da agricultura. Ela ocorria originalmente em 17 de dezembro, mas expandiu-se para uma celebração de uma semana (até 23 de dezembro), e foi o precursor social do espírito natalino conhecido hoje.
No ano 274 EC, o imperador Aureliano estabeleceu o culto ao Sol Invictus como uma religião oficial em todo o Império Romano. A celebração ocorria em 25 de dezembro, logo após o solstício de inverno no Hemisfério Norte. Era o momento em que o dia começava a ficar mais longo novamente e simbolizava o nascimento do sol. O cristianismo, ganhando força no império, não conseguia abolir essas festas populares profundamente enraizadas e adotou a estratégia de inculturação. Em vez de proibir a festa, a Igreja declarou Jesus como "Sol da Justiça" e transferiu a adoração do astro para a figura religiosa. Entretanto, não há menção no Novo Testamento sobre a data de nascimento de Jesus. Inclusive, a descrição bíblica de pastores com rebanhos ao ar livre jamais aconteceria em dezembro.
O deus persa Mitra, muito popular entre os soldados romanos, também tinha seu nascimento celebrado em 25 de dezembro, o que reforçava ainda mais a importância daquela data no imaginário pagão.
A celebração cristã da Páscoa foi sobreposta à Pessaḥ judaica, mas incorporou elementos de festivais pagãos de primavera que celebravam o renascimento da natureza e a fertilidade. A data da Páscoa cristã, definida pelo Concílio de Niceia em 325 EC, foi calculada com base no equinócio de primavera, período tradicionalmente associado a cultos pagãos de fertilidade. Até mesmo o termo "Easter" (Páscoa em inglês) deriva de Eostre ou Ostara, deusa germânica da primavera e fertilidade.
Símbolos como a cruz, halos e auréolas também foram ressignificados. A cruz como símbolo religioso precede o cristianismo em milênios, aparecendo em diversas culturas como símbolo solar (cruz celta) ou representação de divindades (cruz ansata egípcia). Santos e figuras cristãs representados com halos luminosos têm origem na iconografia pagã greco-romana, onde divindades solares e imperadores divinizados eram representados com auréolas
Abandono do Shabat
A mudança do sétimo dia (Shabat) para o primeiro dia da semana (domingo) como dia de culto cristão não tem fundamento bíblico. A transição ocorreu gradualmente nos primeiros séculos do cristianismo, influenciada pelo culto romano ao Sol Invictus, que tinha o domingo (dia do sol) como dia sagrado. O imperador Constantino formalizou o domingo como dia de descanso no Édito de 321 EC, explicitamente chamando-o de "venerável dia do sol". Esta mudança representa tanto o abandono do mandamento do Shabat quanto a adoção de uma prática de origem pagã em seu lugar.
Antes desse decreto, o conceito de um dia de descanso semanal era quase exclusivamente judeu. Para o mundo romano, a semana de sete dias com um dia de folga não era a norma. Com o tempo, a Igreja reforçou essa transição de forma teológica, proibindo os cristãos de guardarem o sábado, como os judeus, e incentivando o descanso no domingo. Isto por si só representa uma grande contradição teológica, pois a Igreja substituiu o sábado, do qual o próprio Novo Testamento afirma que Jesus é o Senhor (Mateus 12.8), pelo dia consagrado ao sol no culto pagão.
Halaḥicamente, o Shabat permanece como o único dia sagrado estabelecido pelo Criador, enquanto o domingo foi o resultado de uma adaptação política baseada no culto solar, sem qualquer status de santidade pela Torá.
Textos cristãos
Do ponto de vista haláḥico, os textos cristãos, particularmente o Novo Testamento, não possuem santidade e não devem ser tratados como escrituras sagradas pelos Bnei Noaḥ. Até mesmo traduções cristãs do Antigo Testamento não devem ser consideradas sagradas, pois muitas contêm vieses teológicos, interpretações incorretas e até alterações deliberadas do texto hebraico para apoiar doutrinas cristãs.
O estudo de textos cristãos para propósitos de entendimento acadêmico, histórico ou comparativo é geralmente permitido, desde que feito com consciência clara de suas limitações e problemas teológicos. No entanto, os Bnei Noaḥ que estão em transição do cristianismo podem precisar de um período de distanciamento completo destes textos para permitir a reorientação mental e espiritual.
Para que um texto seja considerado sagrado pela halaḥá, ele deve ser baseado diretamente nas fontes judaicas e traduzido por judeus ou Bnei Noaḥ sob orientação rabínica, sem vieses de outras tradições. Os Bnei Noaḥ devem preferir traduções judaicas reconhecidas ou, idealmente, estudar o texto hebraico original com comentários judaicos tradicionais.
Outras diferenças teológicas
Muitos conceitos estruturais do cristianismo possuem perspectivas diferentes na halaḥá. A graça divina, motor do plano de redenção, contradiz o sistema divino de justiça e mérito estabelecido na Torá, uma vez que este sistema é subvertido em função de um favor imerecido.
Essa teologia parte da doutrina do pecado original, onde a humanidade herda a culpa do pecado de Adam e necessita de redenção através de Jesus. A perspectiva judaica rejeita esta noção e se apoia totalmente no princípio da Torá (Devarim 24.16) de que cada pessoa morre pelo seu próprio pecado. O profeta Ieḥezkel (18.20) reforça este princípio ao afirmar que um filho não será culpado dos pecados do pai e nem o pai, dos do filho.
A doutrina de salvação exclusivamente pela fé em Jesus contradiz o princípio haláḥico da relação entre ação e mérito espiritual, além de impor um intermediário obrigatório no acesso ao Criador. Essa mediação é afirmada pelo próprio Jesus (João 14.6), enquanto o livro de Tehilim (145.18) afirma que o Criador está perto de todos que O invocam.
Por fim, a halaḥá rejeita completamente a necessidade de mediação. Os Bnei Noaḥ alcançam o Próximo Mundo através do cumprimento das Sete Leis e da teshuvá sincera, sem depender de mediação externa.
Considerações finais
A análise detalhada e técnica do cristianismo reflete a importância do esclarecimento desse tema à luz da Torá, pois a maioria esmagadora das pessoas que chegam ao caminho noaíta vem de contextos cristãos, trazendo consigo conceitos teológicos profundamente enraizados que precisam ser examinados cuidadosamente. A perspectiva da halaḥá não se resume a olhar o cristianismo em si, mas em aplicar parâmetros universais para compreender o quanto cada doutrina se alinha ou não com a Torá.
Por mais espinhoso que seja, a falta de compreensão clara sobre o cristianismo pode ser o maior inimigo das pessoas, que estão imersas na cultura ocidental. A grande maioria das datas civis, projetos escolares, feriados e eventos sociais tem algum viés cristão, e os Bnei Noaḥ precisam de compreensão para viverem com mais clareza espiritual.
Bibliografia
- Rambam, Hilḥot Melaḥim 11.4 (versão não censurada - manuscrito Kapaḥ)
https://www.chabad.org/library/article_cdo/aid/1188356/jewish/Melachim-uMilchamot-Chapter-11.htm#v4
- Codex Justinianus 3.12.2 - Édito de Constantino (321 EC)
https://www.thelatinlibrary.com/justinian/codex3.shtml
- Hijmans, S. "Sol Invictus, the Winter Solstice, and the Origins of Christmas"
Mouseion, Vol. 3 (2003), pp. 377-398
https://muse.jhu.edu/article/591296
- Macrobius, Saturnalia (séc. V EC)
https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Macrobius/Saturnalia/home.html
- Eusébio de Cesareia, Vida de Constantino, Livro III
https://www.newadvent.org/fathers/25023.htm
Qualquer um que aceite os Sete Mandamentos e tenha cuidado em fazer isso é um justo entre as nações do mundo e tem uma parte no próximo mundo.
- Maimônides, Mishnê Torá