O conceito de Shituf

Código de Leis

O termo shituf (שתוף) significa literalmente “associação” ou “parceria” em hebraico, e representa uma das formas mais sutis e perigosas de idolatria. Shituf descreve a crença ou prática de associar outras entidades, poderes ou seres ao Criador do universo, reconhecendo um Deus supremo mas atribuindo um nível de poder independente a outras forças ou intermediários. Esta forma de idolatria é considerada na tradição judaica como a mãe de todas as formas de idolatria, pois representa a corrupção fundamental do monoteísmo absoluto que a Torá exige.


A distinção crucial do shituf está em sua aparência enganosa. Diferente da idolatria óbvia que nega completamente o Criador ou que adora ídolos sem qualquer reconhecimento do Deus verdadeiro, o shituf se mostra como uma forma de monoteísmo, mas contamina a unidade absoluta do Criador ao introduzir parceiros, intermediários ou forças divinas adicionais. Esta é precisamente a razão pela qual o shituf é tão perigoso, pois as pessoas podem acreditar realmente que são monoteístas quando, na verdade, estão violando o princípio mais fundamental da lei de Idolatria.




Fundamento bíblico da proibição




A proibição do shituf está enraizada no próprio texto da Torá. Em Shemot 22.19, está escrito claramente que “Quem sacrifica aos deuses será destruído, a menos que seja somente ao Criador.” Este verso estabelece sem ambiguidade que qualquer forma de associação de outras entidades ao culto do Criador constitui uma violação grave.


O Midrash (Meḥilta de Rabi Shimon ben Ioḥai 22.19) interpreta este verso de forma enfática, ensinando que todos aqueles que associam o Criador com um nome de idolatria estão sujeitos à destruição. Esta interpretação demonstra que mesmo quando o Criador é reconhecido como divindade suprema, a adição de qualquer outra entidade no culto constitui idolatria.


A declaração fundamental do monoteísmo judaico, o Shemá (Devarim 6.4), afirma que “Escuta Israel, o Criador é nosso Deus, o Criador é Um”. Esta unidade absoluta do Criador não permite nenhuma forma de compartilhamento, parceria ou divisão. Qualquer teologia que introduza múltiplas pessoas, forças ou entidades dentro da divindade contradiz diretamente esta declaração central.




Origem histórica do conceito




O termo shituf surge na literatura rabínica medieval, particularmente nos comentários dos Tosafot, sábios que viveram na França e Alemanha nos séculos 12 e 13. Estes comentaristas discutiram casos específicos envolvendo juramentos e relações comerciais com não judeus cujas religiões incluíam elementos de associação de outras entidades ao Criador.


No entanto, embora o termo específico seja medieval, o conceito que ele descreve é antigo. Desde o início da história humana, as formas de idolatria frequentemente incluíam o reconhecimento de um deus supremo junto com a adoração de outras divindades menores ou intermediários. O shituf representa, portanto, a codificação haláḥica de um padrão idólatra que sempre existiu.




Distinção entre monoteísmo puro e shituf




O monoteísmo puro, conforme ensinado na Torá, reconhece a existência de um único Criador, sem divisões, parceiros ou intermediários. Este Criador é entendido como a fonte de toda existência, poder e autoridade, sem precisar de intermediários para Se relacionar com Sua criação.


O shituf, por outro lado, introduz uma das seguintes distorções:


- Enxergar Deus como um núcleo, onde existem diferentes aspectos ou pessoas iguais e eternas dentro de um único Deus, cada uma possuindo poder divino independente.

- Necessidade de adorar ou venerar intermediários para alcançar o Criador, atribuindo a estes intermediários poderes divinos ou status de co-criadores.

- Reconhecimento de forças ou entidades que possuem poder divino independente, mesmo que subordinadas a um Deus supremo.

- Crença de que o Criador, que é absolutamente incorpóreo segundo a Torá, pode Se encarnar em forma física ou humana.


Cada uma destas distorções constitui uma violação fundamental do monoteísmo. A Torá ensina que o Criador está além de tudo, sendo único, indivisível e não corporificado. Qualquer teologia que contradiga estes atributos fundamentais desvia-se do monoteísmo puro e cai no shituf.




Por que shituf é considerado idolatria




A gravidade do shituf deriva do fato de que ele corrompe a própria essência do reconhecimento do Criador. Maimônides ensina no Mishnê Torá (Iessodei Hatorá 1.1-6) que o primeiro e mais fundamental princípio de toda a Torá é reconhecer que existe um Deus que causou a existência de todas as coisas, e que Ele é a causa inicial indivisível.


Quando alguém introduz parceiros, intermediários ou divisões dentro da divindade, mesmo mantendo a crença em um Deus supremo, essa pessoa está negando a unidade absoluta do Criador. Esta negação não é menos grave que a negação completa do Criador, pois ambas distorcem a compreensão correta da natureza divina.


O profeta Malaḥi (1.11) é citado na literatura rabínica como evidência de que mesmo os idólatras reconhecem alguma forma de divindade suprema, chamando-a de “Deus dos deuses”. No entanto, este reconhecimento não absolve a idolatria, pois ela inclui outras entidades ao culto divino. Da mesma forma, o shituf não se torna aceitável simplesmente por reconhecer um Deus supremo.




Shituf nas religiões contemporâneas




A forma mais comum de shituf no mundo contemporâneo aparece particularmente na doutrina da trindade. Esta teologia afirma que existem três pessoas iguais, eternas e distintas dentro de uma única divindade. Embora isso seja tratado como monoteísmo, a halaḥá identifica claramente esta crença como shituf, pois introduz divisões e entidades dentro da divindade.


Isto é agravado com a inclusão da veneração de intermediários como santos, anjos ou figuras religiosas. Estas práticas adicionam novas camadas de idolatria, pois atribuem a estas entidades poderes divinos ou a capacidade de intermediar a relação com o Criador.


Mesmo grupos que rejeitam imagens físicas podem cometer shituf através de crenças teológicas. A questão não é apenas sobre ídolos físicos, mas sobre a estrutura conceitual da divindade. Se essa estrutura inclui múltiplas pessoas divinas, encarnações do Criador ou intermediários necessários, então constitui shituf independentemente da ausência de representações físicas.




Aplicação da lei de Idolatria aos Bnei Noaḥ




Para os Bnei Noaḥ, o shituf está completamente proibido pela lei de Avodá zará. O Mishnê Torá (Hilḥot Avodá Zará 2.1) estabelece que os não judeus são obrigados a reconhecer e venerar somente o Criador, sem associar qualquer outra entidade a Ele.


Os Bnei Noaḥ devem observar um monoteísmo puro e sem distorções, rejeitando todas as formas de teologia que introduzem divisões, parceiros ou intermediários divinos. Um Ben Noaḥ que mantém crença ou prática de shituf viola a lei de Avodá Zará mesmo que reconheça o Criador como o Deus supremo.


Maimônides estabelece no Mishnê Torá (Hilḥot Melaḥim 9.1-2) que os Bnei Noaḥ são proibidos de qualquer forma de idolatria. Os poskim entendem que esta proibição abrange todas as formas de associação de outras entidades ao Criador, sem exceção.




Perigos espirituais do shituf




O shituf é um perigo espiritual particular, porque ele dá a falsa sensação para as pessoas acreditarem que são monoteístas enquanto praticam idolatria. Esta confusão impede o reconhecimento genuíno do Criador e distorce fundamentalmente a relação entre o humano e o divino.


Além disso, o shituf frequentemente serve como porta de entrada para formas mais graves de idolatria. Quando a unidade absoluta do Criador é comprometida, torna-se mais fácil adicionar outras distorções e práticas idólatras. A história mostra repetidamente como religiões que começam com alguma forma de shituf eventualmente desenvolvem práticas cada vez mais idólatras.


O shituf também impede o cumprimento adequado das outras Sete Leis. Quando a compreensão do Criador está distorcida, isto afeta todos os outros aspectos da vida religiosa e ética. O reconhecimento correto do Criador é o fundamento sobre o qual todas as outras leis se constroem.




Situações de extrema necessidade




A halaḥá reconhece que existem situações extremamente raras onde a vida de uma pessoa está em perigo iminente. Em casos de ameaça mortal direta, onde a única alternativa à morte é proferir palavras de shituf ou fazer gestos externos de idolatria, um Ben Noaḥ pode fazê-lo externamente para preservar sua vida, desde que mantenha internamente a crença no monoteísmo puro.


Esta permissão limitadíssima deriva do princípio de que preservar a vida tem precedência sobre quase todas as outras considerações. No entanto, esta situação é definida de forma muito estreita. Deve existir uma ameaça real e imediata de morte, não apenas desconforto social, pressão familiar ou dificuldades econômicas. Além disso, esta permissão aplica-se apenas a ações sob coerção extrema, nunca à crença genuína ou prática voluntária de shituf.


É fundamental enfatizar que esta é uma exceção extremamente rara, não uma norma ou flexibilidade geral. Os Bnei Noaḥ são obrigados a evitar o shituf em todas as circunstâncias normais da vida.




Consequências espirituais do shituf




De acordo com a tradição judaica, apenas os que reconhecem a unicidade do Criador e cumprem as Sete Leis por reconhecimento de que foram dadas por Ele são considerados justos entre as nações e merecem uma parte no Próximo Mundo.


Maimônides estabelece claramente que um não judeu que pratica idolatria, incluindo o shituf, não alcança o status de justo entre as nações. Esta é uma consequência natural do fato de que o shituf representa uma rejeição fundamental do monoteísmo original.


Além das consequências espirituais, o shituf tem implicações práticas no dia-a-dia. Uma pessoa que mantém crenças de shituf está, por definição, violando uma das Sete Leis fundamentais. Isto afeta seu status haláḥico e sua relação com a comunidade Bnei Noaḥ.




Caminho para o monoteísmo puro




Para aqueles que cresceram em tradições que incluem elementos de shituf, o caminho para o monoteísmo puro requer estudo, reflexão profunda e comprometimento. Os seguintes passos são essenciais:


- Compreender claramente o que a Torá ensina sobre a natureza do Criador através do estudo de textos fundamentais como o Mishnê Torá de Maimônides, particularmente os capítulos sobre Fundamentos da Torá.

- Rejeitar claramente todas as crenças que contradizem o monoteísmo puro, incluindo a crença em múltiplas pessoas divinas, encarnações do Criador ou intermediários necessários.

- Aceitação do monoteísmo de forma prática e conceitual, não apenas acreditando nos princípios gerais, mas vivendo um estilo de vida alinhado com essa crença. Isso deve refletir a forma de pensar, agir e falar no dia-a-dia.

- Distanciamento de todas as práticas religiosas que envolvem shituf, incluindo participação em cultos, rezas ou rituais que invocam ou veneram outras entidades além do Criador.

- Buscar orientação de autoridades rabínicas ortodoxas que possam guiar o processo de transição do shituf para o monoteísmo puro.


As comunidades Bnei Noaḥ devem ficar atentas em manter o monoteísmo puro e rejeitar todas as formas de shituf. Isto implica diretamente na educação constante dos membros e na orientação focada nas pessoas que estão se aproximando do caminho da Torá vindas de tradições com elementos de shituf.




Fundamento do monoteísmo




O reconhecimento puro e absoluto do Criador como único, sem parceiros, divisões ou intermediários, é o fundamento sobre o qual todo o caminho Bnei Noaḥ se constrói. Sem este fundamento sólido, todo o resto está comprometido. Por isso, a rejeição do shituf não é uma questão técnica ou opcional, mas uma obrigação fundamental.


O shituf representa a antítese deste monoteísmo puro. É a mãe da idolatria porque corrompe a própria essência do reconhecimento divino. Por isso, os Bnei Noaḥ devem rejeitá-lo completamente e abraçar a compreensão profunda da existência de um único Criador.

Qualquer um que aceite os Sete Mandamentos e tenha cuidado em fazer isso é um justo entre as nações do mundo e tem uma parte no próximo mundo.

- Maimônides, Mishnê Torá

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