Tipos de idolatria

Código de Leis

A lei de Idolatria (Avodá zará) proíbe o serviço a qualquer entidade que não seja o Criador. Esta lei estabelece o princípio fundamental do monoteísmo noaíta, reconhecendo o Criador como única fonte legítima de culto. Dentro desta estrutura ampla de Avodá zará, a halaḥá identificou diferentes formas de culto idólatra, cada uma com características específicas e implicações legais.


Parte do cumprimento dessa lei envolve a compreensão profunda dos diferentes tipos de idolatria, a fim de evitar práticas que violam a lei de Avodá zará. A tradição oral preservou descrições detalhadas de várias formas históricas de culto idólatra, algumas das quais são mencionadas explicitamente na Torá escrita e discutidas extensivamente no Talmud. Embora muitas destas práticas não existam mais da forma exata descrita nas fontes clássicas, os princípios por trás delas ainda podem ser identificados na era contemporânea.




Baal Peor




Baal Peor (בעל פעור) representa uma das formas mais degradantes de culto idólatra mencionadas na Torá. O episódio de Baal Peor ocorreu quando os israelitas estavam acampados em Shitim, antes de entrar na Terra de Israel. 


O Talmud (Sanhedrin 64a) descreve a forma específica de culto a esta divindade de maneira que revela a profundidade da degradação espiritual envolvida. Uma mulher não judia que estava muito doente jurou que, se recuperasse de sua doença, ela iria adorar todos os ídolos do mundo. Ela se recuperou e começou a adorar todos os ídolos. Quando ela chegou em Peor, ela perguntou aos seus sacerdotes como este era adorado. Eles disseram a ela que se come vegetais e bebe cerveja forte para defecar diante do ídolo.


Este relato ilustra que o culto a Baal Peor envolvia a prática de defecar diante do ídolo como ato de adoração. O nome Peor (פעור) deriva da raiz hebraica que significa "abrir" ou "expor", fazendo referência direta à exposição corporal envolvida no ritual. Esta forma de culto era tão repulsiva que mesmo a mulher não judia da história, apesar de ter prometido adorar todos os ídolos, recusou-se a participar deste ritual específico.


A halaḥá estabelece que qualquer pessoa que defeca diante de Baal Peor, mesmo com intenção de degradá-lo, está tecnicamente realizando seu culto característico. O Talmud (Sanhedrin 64a) relata um caso ilustrativo de um judeu chamado Sabta ben Alas entrou no santuário de Peor, defecou diante do ídolo e limpou-se no nariz dele, querendo degradar o ídolo o máximo possível. No entanto, os sacerdotes de Peor o elogiaram, dizendo que ninguém nunca havia adorado o ídolo tão bem.


Este relato mostra que a forma de culto determina se uma ação constitui idolatria, independentemente da intenção do praticante. Este princípio é fundamental na halaḥá de idolatria: realizar o modo característico de adoração de um ídolo específico constitui sua adoração, mesmo quando feito com intenção de desrespeito.


Baal Peor serve como exemplo paradigmático de como a idolatria representa não apenas erro teológico, mas degradação espiritual completa. Enquanto outras formas de idolatria podem parecer esteticamente agradáveis ou filosoficamente elaboradas, Peor expõe a essência verdadeira de todo culto idólatra, isto é, a substituição do sagrado pelo profano e a inversão dos valores divinos.




Moleḥ




Moleḥ (מלך) é uma das formas mais terríveis de idolatria mencionadas na Torá (Vaicrá 18.21), caracterizada pelo sacrifício ou passagem de crianças pelo fogo. Esta proibição é repetida múltiplas vezes na Torá, demonstrando a gravidade particular desta transgressão.


A natureza exata do culto a Moleḥ foi debatida pelos sábios. Segundo o Rambam, o ritual envolvia entregar a criança aos sacerdotes do ídolo, que a seguravam diante da face da estátua e depois a devolviam aos pais, que então faziam a criança passar através de um grande fogo. Há discussão se a intenção era sacrificar a criança completamente nas chamas ou meramente passá-la pelo fogo como um ato de consagração, embora ambas as interpretações concordem sobre a natureza extremamente perigosa e mortífera desta prática.


O ídolo Moleḥ estava localizado no vale de Ben Hinom, próximo a Ierushaláim, um local que se tornou sinônimo de destruição e sofrimento. O Midrash descreve que o ídolo tinha uma face de bezerro e mãos abertas como alguém que quer receber algo. Eles acendiam o ídolo em fogo até que suas mãos ficassem em brasas. Havia sete câmaras diante dele, e de acordo com a qualidade do sacrifício, determinava-se quão perto se podia chegar dele.


Esta prática representa a inversão mais completa da ordem moral divina. Enquanto o Criador ordena preservar e nutrir a vida, especialmente a vida das crianças, o culto a Moleḥ exigia sua destruição. A Torá conecta esta proibição diretamente com a profanação do Nome divino, indicando que sacrificar crianças constitui não apenas um crime contra a humanidade, mas uma ofensa direta ao Criador.


Na história do povo judeu, alguns reis perversos adotaram o culto ao Moleḥ. O rei Menashe, por exemplo, fez seu filho passar pelo fogo (Melaḥim II 21.6), demonstrando o nível de decadência espiritual que pode ocorrer quando se abandona o serviço ao Criador. O rei Ioshiahu posteriormente destruiu o local de sacrifícios no vale de Ben Hinom, eliminando o ponto onde estas práticas eram realizadas (Melaḥim II 23.10).


Para os Bnei Noaḥ contemporâneos, embora o culto literal a Moleḥ não mais exista, o princípio permanece relevante. Qualquer prática que coloque crianças em perigo extremo ou as sacrifique em nome de uma ideologia, crença ou interesse material pode ser vista como uma forma moderna desta antiga abominação. A proteção da vida infantil é um valor fundamental que deriva diretamente desta proibição antiga.




Ov e Idoni




Ov (אוב) e Idoni (ידעוני) representam práticas de necromancia e adivinhação através de espíritos. Embora estas práticas sejam distintas entre si, ambas envolvem tentativas de acessar conhecimento oculto através de métodos que a Torá proíbe explicitamente. A diferença principal entre estas formas de adivinhação está nos métodos empregados e no tipo de espírito invocado.


O praticante de Ov, chamado baal Ov (mestre do espírito), realiza rituais específicos para conjurar espíritos dos mortos. Segundo Maimônides (Hilḥot Avodá Zará 6.1), o baal Ov queima incenso e segura um ramo de murta, agitando-o e recitando fórmulas até que uma voz pareça vir de baixo da terra. O Talmud (Sanhedrin 65b) acrescenta que ele também pode usar um crânio humano para obter respostas, onde a voz parece sair de suas próprias axilas.


O Idoni utiliza métodos diferentes. De acordo com as fontes talmúdicas, o praticante coloca o osso de um animal ou pássaro específico em sua boca, realiza rituais com incenso e outras ações até que pareça que uma voz fala através de sua boca, predizendo o futuro. A palavra Idoni (ידעוני) está relacionada à raiz hebraica que significa "conhecimento" (ידע), sugerindo que esta prática envolve obter conhecimento através de meios ocultos.


Estas proibições aparecem claramente na Torá (Vaicrá 19.31), que diz: 


Não recorram aos necromantes nem aos adivinhadores, para não se contaminarem com eles. Eu sou o Criador, seu Deus.


A gravidade desta transgressão é enfatizada em Vaicrá 20.27 pela pena estabelecida. Ov e Idoni são respectivamente os termos para necromantes e adivinhadores, e recebem a pena máxima do tribunal judaico:


Qualquer homem ou mulher que for necromante ou adivinhador será morto. Eles devem ser apedrejados e responsabilizados pela própria morte.


O exemplo mais conhecido de consulta a um baal ov na Torá é o episódio da bruxa de Ein Dor (Shemuel I 28). O rei Shaul, desesperado por orientação antes de uma batalha crucial, foi consultar uma mulher que praticava Ov, pedindo que ela invocasse o espírito do profeta Shemuel. Este episódio é particularmente significativo porque o próprio Shaul havia anteriormente banido todos os praticantes de Ov e Idoni da terra, mas recorreu a esta prática proibida em seu desespero.


A razão fundamental para estas proibições relaciona-se à natureza da fé no Criador. Buscar conhecimento ou orientação através de espíritos dos mortos ou práticas ocultas demonstra falta de confiança na providência divina e na orientação que o Criador fornece através de meios legítimos. Adicionalmente, estas práticas são vistas como formas de idolatria porque atribuem poder independente a entidades que não são o Criador.


Para os Bnei Noaḥ, estas proibições se estendem a todas as formas contemporâneas de necromancia, sessões espíritas, tentativas de comunicação com os mortos e práticas similares de adivinhação que buscam conhecimento oculto através de meios proibidos. A halaḥá reconhece que a busca por conhecimento futuro ou oculto deve ser direcionada ao Criador através de meios legítimos, não através de intermediários espirituais proibidos.




Asherá




Asherá (אשרה) era uma divindade canaanita associada com fertilidade e frequentemente adorada através de objetos físicos específicos, geralmente descritos como postes ou árvores trabalhadas. Estes objetos serviam tanto como símbolos da deusa quanto como focos de adoração. A conexão entre Asherá e árvores é repetida mais de trinta vezes na Torá, descrevendo locais de culto idólatra.


No contexto canaanita mais amplo, Asherá era considerada uma deusa mãe e frequentemente associada com Baal, outra divindade principal daquela região. Em algumas tradições antigas, Asherá era vista como consorte de El, o deus criador canaanita, ou de Baal, deus da fertilidade. Esta associação com fertilidade explica por que seu culto frequentemente envolvia árvores e postes, símbolos de vida e crescimento.


A Mishná (Avodá Zará 3.7) explica que se alguém corta um galho, uma vara ou mesmo uma folha de uma Asherá, ela perde seu status de ídolo. Esta regra demonstra que a halaḥá permitia desqualificar esses objetos de culto através de ações que os tratassem como matéria comum, profanando sua suposta natureza sagrada.


Na história do povo judeu, a luta contra o culto a Asherá foi constante. Diversos reis justos são elogiados por removerem a Asherá da terra, enquanto reis perversos são criticados por estabelecê-las. O rei Menashe chegou ao extremo de colocar uma imagem de Asherá dentro do próprio Templo de Ierushaláim (Melaḥim II 21.7), representando uma profanação máxima. O rei Ioshiahu posteriormente queimou esta imagem no vale do Kidron e espalhou suas cinzas sobre túmulos (Melaḥim II 23.6).


A proibição contra Asherá tem implicações específicas para os Bnei Noaḥ. Ela estabelece que associar objetos naturais, particularmente árvores ou representações de árvores, com poder divino ou usá-los como intermediários no serviço divino constitui idolatria. Este princípio se estende a qualquer tentativa de usar objetos físicos como mediadores entre o adorador e o Criador, violando o conceito fundamental de que o Criador não necessita nem deseja intermediários físicos.


Na era contemporânea, embora o culto literal a Asherá não exista mais, o princípio permanece relevante. Qualquer prática que atribua poder espiritual inerente a objetos naturais, ou que use elementos da natureza como focos de adoração em substituição ao Criador direto, reflete os mesmos princípios errôneos que fundamentavam o culto a Asherá.




Divindades das nações




Além dos tipos específicos mencionados, a Torá documenta diversas outras divindades adoradas pelas nações, cada uma com seus próprios rituais e formas de culto. Embora não detalhe o modo de culto individualmente, o livro de Melaḥim II (17.29-31) fornece uma lista de divindades adoradas por diferentes povos que foram reassentados em Shomron após o exílio das dez tribos:


Os homens de Bavel fizeram Sucot Benot, os homens de Cut fizeram Nergal, e os homens de Ḥamat fizeram Ashimá. Os Avitas fizeram Nibḥaz e Tartac, e os Sefarvaítas queimavam seus filhos no fogo para Adramelec e Anamelec, os deuses de Sefarvaim.


Este é um panorama da diversidade de cultos idólatras existentes no período bíblico. Cada uma destas formas de idolatria representa uma tentativa de explicar e controlar forças que estavam além da compreensão imediata.


A importância do estudo destas formas históricas de idolatria reside na compreensão dos métodos usados e dos princípios que permitem identificar novas formas de idolatria que surgem no mundo contemporâneo.




Critérios para identificação




A halaḥá estabelece critérios específicos para determinar o que constitui um tipo particular de idolatria. Estes critérios são essenciais para os Bnei Noaḥ aplicarem os princípios da lei de Avodá zará a situações novas e contextos contemporâneos.


O critério fundamental é o modo característico de culto. Cada forma de idolatria possui seus rituais e práticas específicas. Realizar o modo característico de adoração de um ídolo específico constitui sua adoração, mesmo quando feito sem intenção idólatra. Este princípio foi demonstrado claramente no caso de Baal Peor, onde defecar diante do ídolo, sendo seu modo característico de adoração, constitui sua adoração mesmo quando feito com intenção de degradá-lo.


Outro critério importante é a atribuição de poder divino ou autoridade independente a entidades que não são o Criador. Isto inclui não apenas objetos físicos como estátuas ou árvores, mas também forças naturais, corpos celestes, conceitos abstratos ou até mesmo seres humanos quando tratados como possuidores de autoridade divina inerente.


A halaḥá também considera a intenção de servir ou honrar como divino. Uma ação que normalmente seria neutra pode se tornar idólatra quando realizada com a intenção de servir ou honrar uma entidade como se fosse divina.


O contexto cultural e histórico também é levado em consideração. O que em uma cultura pode ser normal, em outro contexto pode estar ligada ao culto idólatra. Os Bnei Noaḥ devem investigar as origens e associações de práticas para determinar se constituem idolatria.


A presença de intermediários no serviço divino requer análise cuidadosa. Enquanto o Criador pode ser servido através de meios legítimos que Ele estabeleceu, criar novos intermediários ou atribuir poder mediador a entidades não autorizadas pelo Criador pode constituir idolatria. Este princípio foi demonstrado na proibição de Asherá, onde árvores ou postes eram usados como intermediários no serviço divino.


Para situações contemporâneas onde não há precedente direto nas fontes clássicas, os Bnei Noaḥ devem consultar autoridades rabínicas que possam aplicar os princípios haláḥicos estabelecidos a novas circunstâncias. A complexidade da vida moderna pode criar situações onde os limites entre algo comum e a idolatria não sejam tão óbvios, requerendo análise cuidadosa à luz da halaḥá.




Aplicação contemporânea




Embora as formas de idolatria descritas nas fontes clássicas não existam mais literalmente, os princípios por trás delas continuam vivos. Muitas filosofias naturalistas tendem a tratar conceitos naturais com um tom que flerta com a idolatria, como a ideia de "mãe natureza”. Há também uma suavização desses conceitos para o público infantil em animações, jogos e brinquedos, que normaliza a idolatria sob várias formas e a leva para dentro das casas, incluindo de famílias noaítas.


A identificação correta dos tipos de idolatria não é apenas um exercício acadêmico, mas uma necessidade real para os Bnei Noaḥ que desejam cumprir a lei de Avodá zará. Conhecer os critérios de identificação oferece aos Bnei Noaḥ as ferramentas necessárias para viver no mundo contemporâneo mantendo o monoteísmo original que o Criador estabeleceu para toda a humanidade.

Qualquer um que aceite os Sete Mandamentos e tenha cuidado em fazer isso é um justo entre as nações do mundo e tem uma parte no próximo mundo.

- Maimônides, Mishnê Torá

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